"O desafio passa por fazer uma intensificação sustentável e tornar o sistema resiliente"
entrevista a Isabel Brito

É especialista em micorrizas arbusculares em contexto de agricultura de conservação, um tema que estuda há 25 anos. Isabel Brito, investigadora no MED e professora na Universidade de Évora, esteve no Fórum ‘Benefícios associados aos usos de micorrizas e tricodermas’, organizado pela Atens/Crimolara, e conta à Vida Rural quais os desafios dos agricultores para continuar conciliar intensificação com sustentabilidade.

https://www.vidarural.pt/destaques/o-desafio-passa-por-fazer-uma-intensificacao-sustentavel-e-tornar-o-sistema-resiliente/

 

Como é que se faz esta gestão para uma intensificação sustentável?

É fundamental uma gestão mais equilibrada dos recursos. Isto implica competências técnicas por parte dos maiores operadores do sistema. Ser agricultor, atualmente, é fazer a tomada de decisão em cada momento de acordo com as circunstâncias, já não é como era há alguns anos em que se semeava num determinado dia, com determinados adubos e estava feito. E se corresse mal a culpa era do tempo.

O clima é variável, mas esta variação é característica dos países mediterrânicos, já estamos habituados… temos é que tornar o sistema mais resiliente e isso exige competências técnicas de quem opera, nomeadamente dos grandes agricultores. Não é fácil, porque exige conhecimentos de nutrição, de maquinaria, de fisiologia, de fitopatologia… mas é preciso conjugar tudo isso em cada momento, porque não há receitas, e cada momento pode ser diferente.

Na minha opinião estes são os grandes desafios: aumentar a produção de forma sustentável e tornar o sistema mais resiliente. Mas, como disse, isso passa por ter operadores, agricultores e técnicos com níveis de competências diferenciados.

Como é que os micro-organismos podem ajudar nesta equação?

Já sabemos muitas coisas sobre como fazer as plantas crescer, faz-se muito trabalho sobre melhoramento de variedades, mas sobre os micróbios do solo continuamos a saber muito pouco.  E eles têm um importante papel que podemos aprender a capitalizar melhor.

Muitos destes micróbios existem naturalmente nos nossos solos, é preciso um solo estar muito degradado para não existirem micro-organismos, o que não é desejável. Mas até em solos muito degradados consegue-se, com algumas práticas, trazer a atividade microbiana de volta.  O ponto desta discussão é conseguir introduzir ajustes nas práticas necessárias para tirar partido do microbioma que naturalmente existe em cada solo, porque é o melhor de todos, o mais barato e é o que está mais adaptado, porque já lá estava. Pode haver circunstâncias em que isso não é possível, ou não é adequado, e nesse caso podemos recorrer a inoculantes, tanto dos simbióticos como dos que permitem o controlo biológico das doenças dos solos. Não podemos esquecer que, neste momento, a maior parte das ferramentas químicas que tínhamos para o efeito [controlo de doenças] estão fora do mercado, foram banidas, e neste momento não há praticamente nada. Estas interações microbianas, as boas (para fazer crescer as culturas) e as más (para controlar os indesejáveis), são interessantes. Mas este trabalho pode ser feito pelas práticas culturais e não podemos assumir aquela postura do ‘antigamente é que era bom’, embora as rotações de culturas que se faziam tivessem uma base e um sentido que tinha também a ver com isto. Porque é que surge o cephalosporim? [cefalosporiose ou murchidão tardia do milho] Porque se fez milho, em cima de milho, em cima de milho… Porque é que surge o Fusarium no tomate? [murcha de fusário] Porque se fez tomate em cima de tomate, em cima de tomate… Mas quando se intercalam as culturas isso deixa de acontecer, porque permite ir diversificando o microbioma e não deixa nenhum micro-organismo indesejável prevalecer. Há certos aspetos das práticas agronómicas mais antigas que são importantes.

Publicado em 05.03.2020